Haddad defende apuração contra Wagner na Operação Master

Ministro justifica investigações independentes
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad reafirmou que a Operação Compliance Zero segue seu curso conforme determinado pelo governo Lula. Em entrevista à BandNews TV, o pré-candidato petista ao governo de São Paulo declarou que a Polícia Federal executa adequadamente sua função ao apurar os fatos relacionados ao senador Jaques Wagner, um dos atingidos pela nona fase da operação que investiga alegados esquemas de fraudes e corrupção vinculados ao Banco Master e seu ex-presidente Daniel Vorcaro.
Haddad enfatizou que as instituições responsáveis pelas investigações atuam com total independência, conforme orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o ex-ministro, desde o início dos trabalhos investigativos, Lula reuniu-se com representantes do Ministério Público, Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Banco Central e Ministério da Fazenda para determinar que a apuração prosseguisse "doa a quem doer".
Direito de defesa e transparência
Durante a sabatina, Haddad destacou que todo investigado possui o direito constitucional de apresentar esclarecimentos às autoridades competentes. O ministro argumentou que a oportunidade de se explicar não representa condenação automática, mas sim um mecanismo para que os envolvidos demonstrem a regularidade de seus atos.
"Quando mais exposição a pessoa tiver, melhor para ela, se estiver segura dos seus atos e se colocar à disposição das autoridades. Isso é o correto. No final do processo, quem errou tem que ser punido; quem se explicou é absolvido, nem é processado", afirmou o petista durante a entrevista. Haddad também mencionou outros nomes envolvidos nas apurações, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, defendendo que qualquer pessoa sob suspeita receba tratamento igualitário.
Estrutura da investigação sobre Wagner
A Operação Compliance Zero apura supostas vantagens indevidas que o senador Jaques Wagner teria recebido em troca de atuação política favorável aos interesses do Banco Master. A investigação concentra-se na relação de proximidade entre Wagner e Augusto Lima, ex-banqueiro apontado como aliado estratégico de Daniel Vorcaro.
Conforme relatório da Polícia Federal, os investigadores identificaram uma série de benefícios suspeitos transferidos ao senador. Entre os pontos centrais da apuração estão a aquisição de um imóvel de luxo em Salvador, ingressos para apresentação da cantora Taylor Swift em São Paulo, transferências financeiras de R$ 3,5 milhões através de empresas vinculadas ao grupo Master, e viagens ao exterior utilizando aeronave particular.
Detalhes das suspeitas investigadas
Segundo os autos da investigação, a compra do apartamento de luxo em Salvador foi realizada pela empresa Epítome S.A., utilizando recursos vinculados ao Banco Master. Wagner teria encaminhado dados do empreendimento a Augusto Lima, que acionou intermediários para operacionalizar a aquisição. O prédio, voltado ao público de alta renda, estava em fase de construção com previsão de entrega para setembro de 2026.
Quanto aos ingressos para o show de Taylor Swift no Brasil, em novembro de 2023, a Polícia Federal apurou que foram adquiridos por orientação de Augusto Lima no valor de R$ 63.339. Segundo a investigação, os bilhetes teriam sido destinados a familiares do parlamentar.
A operação também apreendeu US$ 49 mil em espécie em um endereço em Brasília ligado ao senador. Wagner explicou que o numerário provém de diárias pagas pelo Senado referentes a viagens internacionais que realizou como parlamentar. O senador declarou ter recebido aproximadamente US$ 70 mil em diárias desde 2019 e afirmou não ter nada a esconder.
Transferências financeiras e empresa intermediária
A decisão que autorizou a operação menciona transferência de R$ 3,5 milhões realizada em outubro de 2025. O valor teria sido repassado pela empresa PKL One Participações S.A., dirigida por Andréa Lima Novaes (prima de Augusto Lima) e vinculada ao grupo Master, para a BN Financeira Ltda., empresa associada ao núcleo familiar do senador.
Investigadores apontaram que a BN Financeira foi constituída como microempresa com capital social reduzido e aparente baixa capacidade operacional, porém recebeu valores expressivos em supostos contratos com o Banco Master. Mensagens encontradas no celular de Augusto Lima mostram comunicações sobre pagamentos vencidos e dificuldades financeiras vinculadas à operação entre Master e BRB.
Atuação política sob suspeita
A Polícia Federal também investiga se Wagner atuou diretamente em favor de projetos legislativos de interesse do grupo financeiro. Entre as medidas citadas encontram-se a chamada "Emenda Master" e propostas visando ampliar o limite de crédito consignado, setor em que o grupo Vorcaro mantém forte atuação através do Credcesta.
A operação apura três eixos principais de atuação parlamentar: elevação da margem consignável para trabalhadores CLT, aposentados e pensionistas, além de autorização para empréstimos a beneficiários do Benefício de Prestação Continuada; tentativa de aprovação da PEC 65/2023 com repercussões no Fundo Garantidor de Créditos; e atuação na fiscalização e controle da potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília.
Resposta de Wagner e posicionamento do governo
Em entrevista à BandNews, Jaques Wagner negou ter qualquer relação com Daniel Vorcaro e afirmou que os valores encontrados procedem de diárias legitimamente recebidas. O senador revelou também que o presidente Lula ligou para prestar solidariedade imediatamente após a realização da operação.
A posição de Haddad alinha-se à orientação presidencial de que as investigações prossigam com autonomia institucional, independentemente de envolvimentos políticos. O ex-ministro reafirmou que a aplicação da lei deve ocorrer sem considerações sobre filiação partidária, enfatizando que a integridade institucional depende do cumprimento rigoroso das apurações.
Contexto da Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero iniciou-se em novembro de 2025 investigando fraudes no Banco Master, onde foi identificada emissão de títulos de investimento sem garantias suficientes, com promessas de rentabilidade acima da média de mercado. Daniel Vorcaro foi preso na ocasião, e a Polícia Federal estimou prejuízo potencial de até R$ 12 bilhões.
Nas fases subsequentes, a investigação ampliou-se para incluir suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, intimidação de adversários, espionagem e corrupção. Entre os outros investigados encontram-se o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o governador Cláudio Castro (PL). Todos os envolvidos negam irregularidades.



