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Confira o Fact-Check da Entrevista de Renan Santos

Confira o Fact-Check da Entrevista de Renan Santos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Análise Detalhada das Declarações de Renan Santos na Entrevista ao G1 e GloboNews

O candidato à Presidência da República pelo partido Missão, Renan Santos, concedeu uma extensa entrevista ao G1 e à GloboNews, nesta quarta-feira, 5 de julho. A entrevista foi conduzida pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery nos modernos estúdios da emissora no Rio de Janeiro. A equipe de Fato ou Fake realizou um fact-check completo das principais afirmações feitas durante o programa, verificando dados, estudos e informações citadas pelo presidenciável.

Estudo sobre Presença Paterna e Criminalidade: Verificação Parcial

O candidato mencionou um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) de 2007 para sustentar a tese de que 80% dos meninos internados na Febem não possuem figura paterna. Conforme análise do fact-check, essa alegação requer contextualização importante. A pesquisa intitulada "Determinações demográficas do nível de criminalidade no estado de São Paulo", publicada pelos economistas Gabriel Chequer Hartung e Samuel Pessoa, de fato confirma que a estrutura familiar impacta significativamente os níveis de criminalidade.

No entanto, a verificação revelou que o estudo não apresenta o número específico de "80% dos meninos na Febem". O trabalho da FGV analisou 643 municípios do estado de São Paulo utilizando dados do Censo de 1991 e concentrou-se em crimes violentos como homicídios. A pesquisa evidenciou que quando variáveis demográficas são incluídas no modelo, indicadores econômicos como o Índice de Gini perdem relevância estatística. A ausência de figura paterna foi apontada como tendo peso estatístico mais robusto que a renda isolada, com impactos nas taxas de violência entre 15 e 20 anos depois.

Uma referência correlata encontrada no estudo menciona dados dos Estados Unidos de 1991, segundo os quais 57% dos detentos provêm de lares sem a presença de pai ou mãe. O estudo limitou-se ao estado de São Paulo e não ao Brasil como um todo, analisando a correlação entre ausência paterna, gravidez na adolescência e baixa escolaridade materna.

Comando Vermelho em Santa Quitéria: Confirmado como Fato

A afirmação sobre a interferência do Comando Vermelho nas eleições de Santa Quitéria, no Ceará, foi classificada como fato. Renan Santos declarou que a cidade foi tomada pela facção criminosa e que o prefeito eleito utilizou membros do grupo como capangas para impedir votação e intimidar eleitores. Essa informação foi totalmente validada pelos registros oficiais. Em 17 de março do ano atual, o Tribunal Superior Eleitoral cassou os mandatos do prefeito José Braga Barrozo e do vice-prefeito Francisco Gardel por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024.

Segundo o processo, integrantes da facção criminosa intimidaram eleitores e simpatizantes da chapa adversária com ameaças, pichações e coação durante a campanha eleitoral. O vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa confirmou que as provas indicaram que o prefeito e vice tinham conhecimento das ações da facção, que foram sistematicamente usadas para influenciar o resultado da disputa eleitoral.

Princípio de Pareto e Reincidência: Classificado como Fake

A declaração do candidato sobre o "Princípio de Pareto" e reincidência foi classificada como fake. Renan Santos afirmou que "quase todo mundo que comete crimes são as mesmas pessoas", baseando-se na proporção de Pareto, sugerindo que uma pequena parcela de criminosos seria responsável pela maioria dos delitos. O fact-check revelou que esse argumento não encontra suporte em dados brasileiros atualizados.

Embora o Princípio de Pareto seja de fato utilizado em unidades de Polícia Civil conforme trabalho de 2020 do delegado Breno Eduardo Campos Alves, os dados sobre reincidência criminal no Brasil são muito mais complexos. Uma matéria publicada em 14 de agosto de 2023 na Revista Pesquisa Fapesp apontou que a taxa de reincidência de 70% frequentemente citada é imprecisa e sem origem clara. Estudos recentes realizados em diferentes estados chegaram a números variando entre 24% e 51%, significativamente distantes do índice popularmente utilizado.

O relatório de 2015 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontou uma taxa de reincidência de 24%, definindo reincidente a pessoa condenada novamente após cumprir pena. Estudos mais antigos dos sociólogos Sérgio Adorno e Eliana Bordini aferiram taxas entre 29% e 46% em dados de 1988 e 1991.

Taxa de Homicídios em São Paulo: Confirmado como Fato

A afirmação sobre a diminuição da taxa de homicídios em São Paulo foi validada como fato. O candidato citou que a taxa de mortes violentas em São Paulo diminuiu bastante, especialmente relacionada aos roubos à mão armada. Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em julho, São Paulo possui a segunda menor taxa de mortes violentas do país, com 7,8 por 100 mil habitantes, menos da metade da média nacional de 19,1 por 100 mil habitantes.

Essa redução representa uma tendência histórica de diminuição de assassinatos nas cidades paulistas. Santa Catarina apresenta o menor índice com 7,6 por 100 mil habitantes. Entre 2024 e 2025, São Paulo registrou redução adicional de 3,9% na taxa de homicídios, confirmando a tendência de queda.

Característica Ideológica por Gênero: Não é Bem Assim

Quando Renan Santos afirmou que "a direita jovem costuma ser mais masculina" e "a esquerda jovem mais feminina", essa declaração foi classificada como "não é bem assim". O fact-check identificou que a questão é mais nuançada que a apresentação simples do candidato.

A pesquisa "Juventudes: Um Desafio Pendente" divulgada em novembro de 2025 pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung no Brasil confirmou que mulheres jovens são mais progressistas, com 20% se identificando com a esquerda comparado a 16% de homens jovens. No entanto, o professor de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo, Pablo Ortellado, citou em coluna que a primeira análise internacional de grande repercussão sobre esse tema foi uma reportagem de janeiro de 2024 do Financial Times, indicando que essa é uma tendência global entre países como Alemanha, Coreia do Sul e Reino Unido.

Contudo, outras pesquisas apresentam resultados divergentes. O estudo "Brasil Invisível" de 2025 da organização More in Common não encontrou padrão geracional nas atitudes sobre gênero e sexualidade. Séries de pesquisa internacionais como Lapop e Latinobarómetro também não mostram maior distância ideológica entre homens e mulheres jovens. A distância ideológica entre jovens de ambos os gêneros no Brasil é tão pequena que frequentemente fica dentro da margem de erro.

Aprovação Presidencial: Fernando Henrique e Temer

A referência de Renan Santos aos baixos índices de aprovação de Michel Temer foi validada como fato. Conforme verificação do fact-check, Michel Temer exerceu a Presidência entre maio de 2016 e dezembro de 2018. Uma pesquisa do Ibope de 28 de setembro de 2017, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, indicou aprovação de apenas 3%, com reprovação de 77%.

Um levantamento posterior do Ibope de 2018 encomendado pela TV Globo e O Estado de S.Paulo apontou aprovação de 4% com reprovação de 77%. Temer encerrou o mandato com 7% de aprovação segundo pesquisa do Datafolha de 27 de dezembro de 2018. Implementou importantes reformas como a reforma trabalhista em 11 de julho de 2017, a Medida Provisória para reforma do ensino médio em fevereiro de 2017, e a PEC do teto de gastos em 15 de dezembro de 2016.

Quanto a Fernando Henrique Cardoso no segundo mandato (1999-2002), o fact-check confirmou que enfrentou períodos de rejeição elevada. Em 7 de fevereiro de 1999, o Datafolha apontou rejeição de 36% contra aprovação de 21%. Em junho de 1999, a rejeição atingiu 44% contra 16% de aprovação. Em março de 2001, a rejeição foi 30% e aprovação 26%. Ao final do mandato em fevereiro de 2002, rejeição chegou a 31% e aprovação a 29%. FHC implementou o Fator Previdenciário em novembro de 1999 e a Lei de Responsabilidade Fiscal em maio de 2000.

PEC da Transição: Não é Bem Assim

A afirmação sobre a PEC da Transição foi classificada como "não é bem assim". Renan Santos alegou que os deputados Kim Kataguiri, Pedro Paulo e outro deputado já haviam protocolado a proposta e que ela estava em processo de coleta de assinaturas. O fact-check revelou que embora a iniciativa tenha começado em 2024, ainda não foi formalmente apresentada.

A proposta prevê uma trava para ganhos acima do teto do funcionalismo público e propõe desvincular benefícios previdenciários do salário mínimo. Os deputados federais Pedro Paulo (PSD-RJ), Kim Kataguiri (União-SP) e Julio Lopes (PP-RJ) iniciaram o recolhimento de assinaturas em 2024 para protocolar uma PEC "alternativa" ao plano de corte de gastos do governo. Para apresentação formal, são necessárias pelo menos 171 assinaturas dos 513 deputados federais. Conforme informado pelo próprio Pedro Paulo durante a verificação, o projeto obteve até aquele momento 61 assinaturas, ainda distante do número necessário.

Conclusão da Verificação

O fact-check da entrevista de Renan Santos ao G1 e GloboNews revelou um cenário misto, com afirmações que variam entre completamente verdadeiras, parcialmente adequadas e imprecisas. Enquanto algumas alegações sobre criminalidade em Santa Quitéria e taxas de homicídios em São Paulo foram plenamente validadas, outras sobre estudos demográficos, reincidência criminal e características políticas por gênero requerem contextualizações importantes. A equipe responsável por essa verificação incluiu Clara Gomes Simão, Danilo Perello, Jean Roque, Jerusa Campani, Joelmir Tavares, Jorge Fofano, Lorena Fraga, Mel Trench e Roney Domingos.

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