Témiscaming enfrenta crise pelas tarifas de Trump

Uma cidade inteira à beira do colapso econômico
As tarifas de Trump no Canadá transformaram a vida de centenas de pessoas em Témiscaming, Quebec, em uma luta pela sobrevivência. Após negociações comerciais fracassadas entre Canadá e Estados Unidos, a fábrica de papel que sustentou a cidade por mais de um século foi posta em paralisação econômica indefinida, deixando a comunidade enfrentando o desemprego generalizado e o medo do colapso total.
Ao atravessar o rio Ottawa em direção a Témiscaming, a fábrica de papel domina a paisagem como testemunha silenciosa de uma era de prosperidade. A própria cidade nasceu há mais de cem anos, construída em torno do moinho e das vastas florestas regionais repletas de pinheiros, bétulas e abetos. Agora, esse pilar econômico permanece fechado, e a comunidade luta para encontrar um caminho adiante enquanto as tarifas de Trump no Canadá ameaçam não apenas empregos, mas todo um modo de vida.
O impacto devastador nas famílias locais
Dos 360 funcionários da fábrica, a maioria está desempregada e sobrevive, por enquanto, com pagamentos parciais do programa de alívio tarifário do governo canadense. Para trabalhadores como Nadine Suley, o fechamento não representa apenas a perda de um salário, mas o desaparecimento de uma identidade. Ela pertence a uma família de caçadores e trabalhadores locais, cuja rotina incluía planejar expedições aos alces durante a breve temporada de caça, aproveitando recursos tradicionais da região.
Suley descreve as tarifas impostas pelos Estados Unidos como "um ataque pessoal" contra sua comunidade. "Não é apenas um emprego. É a nossa casa", afirma com a convicção de quem vê décadas de tradição familiar desaparecerem. A percepção entre os residentes é de que estão sendo punidos por uma disputa comercial que os ultrapassa completamente.
O valor dos imóveis em Témiscaming desabou rapidamente. Placas de "Vende-se" agora cobrem os jardins das modestas casas de classe média que caracterizam a comunidade. Há temor generalizado de que profissionais essenciais — desde funcionários de supermercados até médicos dos pequenos hospitais locais — também abandonem a região em busca de oportunidades em cidades maiores.
Crescimento econômico nacional não reflete a realidade regional
Em termos nacionais, a economia canadense resistiu com relativa estabilidade à guerra comercial Canadá EUA. A taxa de desemprego permaneceu praticamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas de Trump, com crescimento econômico moderado porém consistente. No entanto, essa fotografia global mascara focos críticos de dificuldade em setores diretamente atingidos pelas tarifas americanas de até 50%, incluindo aço, alumínio, automóveis e, particularmente, madeira, celulose e papel.
Ronnie Raymond, cujo pai e avô também trabalharam na fábrica, expressa o medo coletivo: "Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma. Não vai sobrar nada, absolutamente nada. Na verdade, não haverá trabalho para ninguém. É assustador." Essa preocupação não é mera especulação. A crise econômica Canadá já provocou efeitos em cadeia pelo setor florestal regional, afetando serrarias e empresas de transporte. Um empreiteiro local informou que precisou demitir 13 funcionários.
Lição do passado oferece esperança e desafios
A última vez que Témiscaming enfrentou ameaça existencial foi em 1973, quando o então proprietário americano da fábrica de papel Canadá ameaçou fechá-la. Naquela ocasião, trabalhadores e gestores se uniram em um esforço extraordinário para comprar a empresa coletivamente, transformando-a na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense com operações na América do Norte e França.
Hoje, liderados pelo sindicalista Stéphane Lefebvre — cujos pai e avó também trabalharam na fábrica — os moradores tentam repetir esse feito histórico. Estão mobilizando uma coalizão para recomprar a empresa da RYAM, proprietária americana que a adquiriu em 2017. "Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar", diz Lefebvre, mas reconhece que isso exigirá apoio significativo do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec.
Frank Dottori, hoje com mais de 80 anos, foi fundamental na mobilização dos anos 1970. Ele recorda ter sido "educadamente colocado para fora" pelo então primeiro-ministro de Quebec quando buscou apoio inicial. Apesar disso, o grupo conseguiu avançar com a ajuda de sindicalistas e um ex-funcionário carismático com experiência em gestão. Dottori afirma que a nova geração precisa de liderança igualmente ousada e que, embora improvável, é possível se se organizarem adequadamente.
Resposta governamental amplifica sentimento de abandono
O prefeito Alain Gauthier descreve as tarifas americanas como "uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá". Ele reclama que, embora políticos afirmem que o Canadá está em guerra econômica com os Estados Unidos, "na realidade, não vemos absolutamente nenhuma evidência de que medidas de guerra estejam sendo tomadas". Para Gauthier, "Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança para revidar".
O deputado do Bloc Québécois, Sébastien Lemire, manifestou-se "muito preocupado e apreensivo" com o que considera uma falta de ação adequada do governo Carney para apoiar a cidade. Enquanto isso, o setor florestal parece ter ficado em segundo plano nos esforços governamentais de proteção industrial. Recentemente, a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou sanções financeiras contra a Stelco — uma grande siderúrgica — caso mantivesse planos de demitir cerca de 500 funcionários. Simultaneamente, Carney e o primeiro-ministro de Ontário anunciaram um pacote de quase C$ 9 bilhões para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico.
Um porta-voz da ministra Joly informou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de programas para ajudar empresas afetadas pelas tarifas a obter capital de giro. Porém, moradores de Témiscaming questionam se essas medidas são suficientes e chegam no tempo adequado.
Estrutura das tarifas e produção local
Em agosto, após fracasso nas negociações, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre aproximadamente C$ 28 bilhões em produtos canadenses, incluindo madeira, celulose, papelaria e caixas. O Canadá respondeu com tarifas retaliatórias proporcionais. A fábrica de Témiscaming produz papelão usado em embalagens de alimentos congelados e bilhetes de loteria instantânea, enviando cerca de 75% de sua produção para o mercado americano — tornando-a extremamente vulnerável às políticas tarifárias de Trump.
Esperança nas eleições e contra o tempo
Muitos trabalhadores depositam esperanças nas próximas eleições americanas, acreditando que resultados eleitorais possam pressionar Trump — cujos índices de aprovação caem — a reduzir tarifas. Há sinais de movimento: na semana anterior, algumas tarifas foram suspensas após articulação da senadora republicana Susan Collins do Maine, em ano de reeleição. Contudo, essas mudanças não contemplaram produtos de Témiscaming.
Suley e seus companheiros trabalham contra o relógio. Com a chegada do inverno, temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos da fábrica paralisada, causando danos que dificultariam ainda mais a reabertura. Lefebvre permanece determinado: "Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final", refletindo o espírito de resistência que tem caracterizado essa comunidade por mais de um século.



