Jornal 24/7
Política

PSOL obtém mais votos que PT em SP mas elege menos deputados

PSOL obtém mais votos que PT em SP mas elege menos deputados
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Como funciona o sistema proporcional nas eleições

O resultado das eleições para a Câmara dos Deputados em São Paulo surpreendeu muitos observadores: o PSOL obteve mais votos que o PT, mas conseguiu eleger menos deputados. A explicação para esse aparente paradoxo está nas regras do sistema eleitoral proporcional, que determina como os votos se convertem em cadeiras no Congresso Nacional. Quando um eleitor vota em um candidato a deputado federal, seu voto contabiliza para o partido ou federação. É a soma total desses votos que define quantas vagas cada legenda conquistará na casa legislativa.

O sistema eleitoral brasileiro funciona de maneira diferente do que muitos imaginam. Não é necessariamente o candidato com mais votos em todo o estado que se elege. Em vez disso, existe um cálculo específico chamado quociente eleitoral, que determina quantas cadeiras cada partido ou federação terá direito e, em seguida, quais candidatos ocuparão essas posições. Essa configuração garante que minorias sejam representadas no Congresso, mas também gera situações em que partidos com mais votos podem conquistar menos assentos que seus concorrentes.

O papel decisivo do quociente eleitoral

Para compreender por que o PSOL elegeu menos deputados apesar de mais votos, é fundamental entender o conceito de quociente eleitoral. A Justiça Eleitoral calcula esse quociente dividindo o número total de votos válidos dados no estado pelo número de vagas disponíveis. Em São Paulo, havia 70 cadeiras em disputa. Após fazer esse cálculo, a Justiça Eleitoral estabeleceu um quociente de aproximadamente 338 mil votos.

O quociente eleitoral não é, no entanto, o número exato de votos que cada candidato precisa receber para se eleger. Na verdade, para ter direito a um mandato, cada político deve atingir no mínimo 10% do quociente, o que em São Paulo correspondia a cerca de 33,8 mil votos individualmente. Esse é o denominado "voto nominal mínimo" exigido pela legislação eleitoral. Candidatos que não atingem esse piso, ainda que sejam membros de partidos com muitos votos, não conseguem ser eleitos pela votação normal, apenas se beneficiarem das chamadas "sobras eleitorais" em rodadas posteriores.

Por que Erika Hilton não conseguiu eleger mais colegas

Erika Hilton se tornou a deputada federal mais votada da história ao conquistar mais de 1,5 milhão de votos em São Paulo. Sua votação extraordinária deveria, teoricamente, "puxar" muitos colegas do PSOL. De fato, esse fenômeno ocorre no sistema proporcional: quando um candidato é extremamente votado, seus votos beneficiam o partido como um todo, aumentando a quantidade de cadeiras que a legenda conquista. No entanto, para que os demais candidatos sejam efetivamente eleitos, eles também precisam atingir aquele piso mínimo de votos.

A federação formada por PSOL e Rede acumulou cerca de 3 milhões de votos em São Paulo, sendo que mais da metade desse total (1,6 milhão) foi concentrada em Erika Hilton. Esse volume extraordinário permitiu que o PSOL elegesse seis deputados no estado. Já a federação composta por PT, PCdoB e PV alcançou 2,5 milhões de votos, número inferior ao do PSOL. Apesar disso, o PT conquistou 11 cadeiras, praticamente o dobro de seus parceiros.

Os candidatos eleitos do PSOL em São Paulo

Os seis deputados federais eleitos pela federação PSOL-Rede em São Paulo foram aqueles que conseguiram ultrapassar a barreira dos 33,8 mil votos exigida. Além de Erika Hilton, que teve 1,6 milhão de votos, foram eleitos: Sâmia Bonfim, com 583 mil votos; Guilherme Cortez, com 275 mil votos; Professora Luciene Cavalcante, com 253 mil votos; Natália Boulos, com 114 mil votos; e a ex-ministra Sônia Guajajara, com 54 mil votos. Todos esses candidatos superaram significativamente o mínimo exigido.

Candidatos da federação que não atingiram a meta individual ficaram fora. Raul Marcelo, por exemplo, recebeu cerca de 29 mil votos, ficando abaixo do limite. Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL, obteve aproximadamente 25 mil votos. Thiago Ávila, da Rede, recebeu cerca de 21 mil. Embora todos esses nomes tivessem participado de uma federação com votação total expressiva, a regra do quociente eleitoral os deixou de fora da primeira distribuição de cadeiras.

A vantagem numérica do PT na votação individual

O PT, por sua vez, tinha uma estrutura diferente de candidatos. Enquanto o PSOL concentrava muitos votos em Erika Hilton, o PT distribuía seus votos de forma mais equilibrada entre seus candidatos. Na federação PT-PCdoB-PV, 13 candidatos conseguiram superar 90 mil votos individualmente. Esse número muito mais elevado de políticos com votação individual expressiva permitiu que o partido conquistasse 11 cadeiras, apesar de ter acumulado menos votos totais que o PSOL.

A candidata mais votada do PT foi Luna Zarattini, que recebeu 233 mil votos, bem abaixo de Erika Hilton. Contudo, a distribuição mais equilibrada de votos entre múltiplos candidatos petistas fez diferença no resultado final. Enquanto Erika puxava votos para a federação, seus colegas do PSOL ficavam atrás na votação individual, prejudicando o resultado geral do partido no cálculo das cadeiras.

A especulação sobre uma federação com o PT

Após o resultado das eleições, alguns apoiadores do PSOL especularam nas redes sociais sobre como teria sido o desempenho do partido caso tivesse aceitado uma federação com o PT. Essa possibilidade havia sido discutida internamente no PSOL, mas foi rejeitada em votação. Especialistas em direito eleitoral, entretanto, alertam que essas simulações são extremamente frágeis.

De acordo com a advogada Iohana Bezerra, especialista em direito eleitoral, os resultados observados não permitem afirmar que uma federação entre PSOL e PT garantiria mais deputados para o PSOL. Numa eventual federação, diversos fatores mudariam: haveria uma lista única de candidatos, limitada ao número de vagas disponíveis; as estratégias de campanha seriam diferentes; e parte do eleitorado poderia não votar da mesma maneira. O desempenho de Erika poderia ajudar o grupo a conquistar cadeiras, mas as vagas adicionais poderiam ser ocupadas por candidatos do PT com mais votos, sem necessariamente aumentar a bancada do PSOL.

O destino das cadeiras não preenchidas

O que acontece com as cadeiras que o PSOL não consegue preencher? Essas vagas não ficam reservadas à federação: entram na disputa das chamadas "sobras eleitorais", que são distribuídas entre todos os partidos e federações que cumprem os requisitos legais, de acordo com o sistema de maiores médias. Nesse cálculo, o total de votos de cada grupo é dividido pelo número de cadeiras já conquistadas acrescido de um. Quem obtiver a maior média e atender às exigências legais recebe a próxima vaga.

Esse processo é repetido successivamente até que todas as 70 cadeiras destinadas a São Paulo sejam preenchidas. A operação garante que nenhuma vaga fique vazia e que a representação no Congresso seja proporcional ao apoio recebido pelos partidos e federações. Portanto, uma cadeira que o PSOL não conseguiu preencher não é automaticamente transferida para outro partido: ela volta ao cálculo e passa a ser disputada por todas as legendas de acordo com suas respectivas médias.

Mais notícias