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Governo atrasa pagamento de emendas com dez dias do prazo

Governo atrasa pagamento de emendas com dez dias do prazo
Fonte: g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/21/a-dez-dias-do-fim-do-prazo-governo-ainda-nao-pagou-10percent-do-valor-minimo-de-emendas-previstas-para-o-1o-semestre.ghtml

Atraso no pagamento de emendas preocupa Congresso

Com apenas dez dias para o encerramento do prazo estabelecido na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o governo de Luiz Inácio Lula da Silva mantém pendente o pagamento de uma parcela significativa das emendas parlamentares obrigatórias para o primeiro semestre. Segundo dados divulgados até 18 de junho, o Executivo federal ainda não quitou aproximadamente 10% do volume mínimo necessário, gerando preocupações entre parlamentares e especialistas em gestão pública.

Calendário e obrigações orçamentárias

O cronograma aprovado na LDO determina que 65% das emendas parlamentares individuais, de bancada e destinadas a fundos de saúde, assistência social e transferências especiais sejam pagas durante o primeiro semestre do ano. Essa divisão permite que os recursos sejam aplicados conforme as demandas regionais e prioridades estabelecidas pelos legisladores.

Até a data mencionada, o governo federal repassou R$ 15,8 bilhões de um total de R$ 17,3 bilhões previstos. Desse montante, R$ 12,3 bilhões foram destinados ao setor de saúde e R$ 583,1 milhões à assistência social, completando integralmente esses dois segmentos.

Desafios com as emendas PIX

O cenário mais crítico envolve as chamadas emendas PIX, modalidade que permite transferências diretas de recursos para estados e municípios. Até 18 de junho, o governo havia repassado R$ 2,8 bilhões, representando 63% dos valores obrigatórios nessa categoria. Faltam ainda R$ 1,6 bilhão, equivalente a 37% do total previsto, para cumprir a determinação legal.

As emendas PIX foram instituídas em 2019 e receberam esse nome justamente pela dificuldade em fiscalizar os recursos. Os valores eram transferidos por parlamentares diretamente para estados ou municípios sem exigência de apresentação de projeto, convênio ou justificativa, criando vulnerabilidades no controle dos gastos públicos.

Histórico recente das emendas PIX

A modalidade foi bloqueada em 2024 por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, gerando debate sobre sua constitucionalidade. Após negociações entre os Três Poderes em fevereiro de 2025, o Congresso aprovou um projeto de lei complementar que exigiu a apresentação de um plano de trabalho para cada emenda PIX, buscando aumentar a rastreabilidade dos recursos.

Impactos políticos e eleitorais

Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisa que o calendário de pagamento de emendas parlamentares cria desequilíbrios significativos nas eleições de 2026. Segundo o pesquisador, deputados que recebem maior volume de emendas têm maiores chances de reeleição, consolidando uma elite parlamentar privilegiada.

"O impacto é direto porque deputado que recebe mais emenda tem mais chance de reeleição. A gente vai consolidando, entre aspas, uma casta no Congresso, privilegiada", afirma o especialista. Grin também destaca que o envio de verbas para redutos eleitorais, na prática, antecipa campanhas políticas e oferece exposição pública estratégica aos parlamentares.

Para o professor, a aprovação do calendário de pagamento foi intencional, visando beneficiar politicamente aqueles com maior poder de execução orçamentária. "É claro que isso tem impacto nas eleições. Essa nova regra que os parlamentares aprovaram obrigando o governo a empenhar todas as emendas até junho, ela foi pensada, justamente, para ter esse efeito eleitoral", conclui.

Preocupações com execução orçamentária

Guilherme France, gerente de pesquisa e advocacy da Transparência Internacional Brasil, aponta que a imposição de pagar emendas parlamentares dentro de prazos rígidos criou novo problema nas contas públicas. A obrigação força o governo a contigenciar outras despesas, incluindo educação, para honrar os compromissos com emendas.

"Quando você perde essa flexibilidade da execução gerando uma dificuldade também para manter as contas equilibradas e, no final das contas, o que a gente tem visto é que com o calendário para pagamento de emendas não existe flexibilidade no pagamento e outras áreas acabam sofrendo", explica o pesquisador.

Mudança no caráter das emendas

France também observa que as emendas parlamentares deixaram de ter predominância como investimentos e passaram a financiar custeio de atividades públicas, como pagamento de salários. Na saúde, particularmente, os recursos direcionados através de emendas apontam crescentemente para manutenção de serviços ao invés de projetos novos.

"Na Saúde, a gente vê os recursos indo cada vez mais para custeio e não para investimento. O que inverte a lógica do gasto público de emendas, porque as emendas não são necessariamente contínuas. Então, não quer dizer que ano que vem vai ter a mesma emenda que teve esse ano, o que acaba gerando esse problema de gestão pública", finaliza France.

Valores já desembolsados

Conforme dados até a última quinta-feira, o governo havia pago um total de R$ 18,4 bilhões em emendas parlamentares. Dessa quantia, R$ 10,9 bilhões foram para indicações de deputados federais, R$ 4,2 bilhões para senadores e R$ 3,2 bilhões para emendas de bancadas estaduais.

Esse valor ultrapassa em R$ 2,6 bilhões o obrigatório para o primeiro semestre de 2026. A maior parte dessa quantia extra, cerca de R$ 1,9 bilhão, foi destinada ao custeio de serviços de Atenção Primária à Saúde. O restante foi aplicado em outras ações públicas, como fomento à cultura, promoção do turismo e apoio ao setor agropecuário.

Perspectivas para os próximos dias

Com o vencimento do prazo se aproximando, permanece incerta a execução integral das emendas parlamentares obrigatórias no primeiro semestre. Dos recursos pendentes, R$ 109 milhões tiveram seus planos de trabalho rejeitados pelo governo por inadequações nas indicações, enquanto R$ 530 milhões encontram-se ainda em processo de aprovação, indicando que o cumprimento total do calendário pode enfrentar dificuldades operacionais.

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