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China reduz dependência de alimentos importados; impactos para agro brasileiro

China reduz dependência de alimentos importados; impactos para agro brasileiro
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A estratégia de Pequim para autossuficiência alimentar

A China reduz dependência de alimentos importados como parte de uma política consolidada de segurança alimentar que orienta investimentos estratégicos há mais de uma década. O presidente Xi Jinping sintetiza essa visão na frase "a tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa", repetida sistematicamente desde 2013. Essa meta aparece agora com força renovada no 15º Plano Quinquenal, divulgado no início de 2025 para o período 2026-2030, estabelecendo objetivos concretos de ampliação produtiva interna.

O plano chinês de redução de dependência alimentar externa reflete preocupações geopolíticas e econômicas, inserindo-se num contexto de tensões comerciais globais. A iniciativa contempla múltiplas frentes de ação, desde tecnologia agrícola até cotas de importação, sinalizando transformações significativas no padrão de negócios que beneficia fornecedores como o Brasil há décadas.

Metas específicas do plano de segurança alimentar chinês

O governo de Pequim estabeleceu objetivos mensuráveis para reduzir sua vulnerabilidade alimentar externa até 2030. Dentre as principais metas destacam-se: elevar a capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas, partindo de pouco menos de 715 milhões colhidas em 2024; aumentar a contribuição da ciência e tecnologia para o desenvolvimento agrícola de 64% para 67%; reduzir a participação do farelo de soja na ração animal de aproximadamente 14% para menos de 10%; produzir ao menos 95% dos grãos básicos como arroz e trigo internamente; alcançar 85% de autossuficiência em carnes bovina e ovina; e atingir 70% de autossuficiência em leite.

Segundo especialistas consultados, a China já superou a meta de autossuficiência em grãos básicos, com produção de arroz e trigo excedendo em mais de 100% a demanda interna, conforme dados do Escritório Nacional de Estatística chinês. Contudo, permanece abaixo das metas em outros alimentos: consegue suprir 70% da demanda interna de carnes vermelhas e 62% da produção de leite, sinalizando deficiências estruturais que persistirão mesmo com investimentos intensificados.

Limitações geográficas que perpetuam a dependência externa

A China enfrenta desafios naturais intransponíveis que limitam sua capacidade de atingir autossuficiência total. Apesar de possuir território maior que o Brasil, o país dispõe de parcela significativamente reduzida de terras aráveis. Boa parte de seu território caracteriza-se por regiões montanhosas, áridas ou desérticas, reduzindo drasticamente o potencial agrícola. Ademais, concentra menos de 5% da água doce disponível globalmente, criando constrangimento hídrico severo para expansão produtiva.

Essas limitações naturais obrigam a China a buscar aumentos de produtividade mediante tecnologia, melhoramento genético de sementes e maquinário avançado, em vez de expandir áreas cultivadas. Inclusive, o país vem intensificando investimentos em sementes transgênicas, tema tratado como tabu até recentemente, buscando elevação de rendimentos sem ampliação de consumo de água ou área plantada.

Impactos imediatos nas exportações brasileiras

As consequências da estratégia chinesa de reduzir dependência alimentar já atingem o agronegócio brasileiro de forma tangível. No mercado de milho, o Brasil sentiu queda expressiva: a China reduziu importações de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025, refletindo colheita recorde interna. Como resultado, exportações brasileiras de milho para o país despencaram 20,8% no ano anterior.

No segmento de carne bovina, o impacto manifesta-se através de cotas de importação. Em janeiro de 2025, a China estabeleceu sobretaxa de 55% sobre importações brasileiras de carne que ultrapassem 1,1 milhão de toneladas, limite já atingido em julho conforme levantamentos especializados. A medida originou-se de investigação de salvaguarda, com o Ministério do Comércio chinês justificando a necessidade de proteger a indústria doméstica e reorganizar o rebanho local.

Para soja, a situação permanece mais estável. A China importou volume recorde de quase 112 milhões de toneladas em 2024, com mais de 70% proveniente do Brasil. Porém, a produção interna chinesa atende apenas cerca de 20% da demanda, mantendo dependência estrutural que justifica continuidade das compras brasileiras apesar dos esforços de autossuficiência.

Estratégias de adaptação para o Brasil

Especialistas destacam que o cenário não aponta ruptura definitiva, mas exige reposicionamento do agronegócio brasileiro. A diversificação de destinos de exportação emerge como prioridade, com abertura de mais de 200 novos mercados apenas em 2025, sendo quase 20 para carne bovina. Contudo, substituir parte significativa do mercado chinês apresenta dificuldade considerável, dado que o país compra aproximadamente metade de todas as exportações brasileiras de carne bovina.

Outra frente estratégica envolve agregar valor aos produtos, migrando de commodities puras para cortes premium, produtos processados e construção de marcas. Essa reorientação exige investimento em infraestrutura, diferenciação qualitativa e posicionamento premium nos mercados internacionais, particularmente em economias desenvolvidas onde a disposição para pagar preços superiores é maior.

A ampliação da presença institucional de empresas brasileiras na China constitui terceira estratégia fundamental. Especialistas apontam que o setor privado brasileiro mantém presença ainda aquém da importância do mercado chinês para o agronegócio nacional, limitando capacidade de acompanhar mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais em tempo real.

Oportunidades em setores emergentes

O Brasil pode ainda explorar novas oportunidades emergentes, particularmente na produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo. Esses setores apresentam demanda crescente esperada nos próximos anos, ampliando mercados de maior valor agregado para soja e milho, reduzindo dependência de exportações de grãos em seu estado puro.

Infraestrutura logística também oferece potencial, com projetos como a ferrovia bioceânica conectando Centro-Oeste ao Pacífico, sinalizando compromisso chinês em garantir abastecimento de longo prazo através de investimentos em transportes e portos.

Perspectivas futuras para relação comercial bilateral

A despeito das cotas e pressões por autossuficiência, especialistas reforçam que a relação comercial entre Brasil e China permanecerá sólida. O comércio agrícola bilateral já atinge aproximadamente US$ 100 bilhões anuais, e investimentos chineses continuam fluxo consistente, como ampliação de terminais portuários e aquisição de equipamentos ferroviários por empresas chinesas. Esses investimentos de longo prazo sinalizam compromisso contínuo com fornecimento brasileiro.

O cenário aponta não para ruptura, mas para exigências crescentes de qualidade, diferenciação e eficiência. A China permanecerá importante comprador, motivada pelo reconhecimento de suas limitações estruturais de terra e água. Conforme especialistas destacam, a China "pode fazer maravilhas em engenharia, mas ainda não dá para inventar terra e água", determinando continuidade fundamental das importações agrícolas brasileiras, ainda que sob novas condições comerciais mais exigentes.

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