Tráfico de ovos de aves ameaçadas movimenta R$ 90 milhões

Organização criminosa internacional desmantelada pela Polícia Federal
A Polícia Federal, em operação coordenada com autoridades da Suíça e Espanha, desarticulou uma sofisticada rede de tráfico de ovos de aves nativas do Brasil que movimentou aproximadamente R$ 90 milhões em quase duas décadas de operações. A investigação revelou que o grupo criminoso extraía ovos de espécies em risco crítico de extinção e os comercializava no mercado internacional por valores que chegavam a R$ 6 mil por unidade.
A operação resultou em prisões em três países e na apreensão de materiais relacionados ao tráfico de fauna. O trabalho investigativo envolveu vigilância, rastreamento de comunicações e coordenação internacional, demonstrando a complexidade dessa modalidade de crime ambiental que prejudica gravemente os ecossistemas brasileiros.
O início da investigação: detecção no aeroporto internacional
O desvendamento dessa rede criminosa iniciou quando a cidadã suíça Erika Zumofen-Göllesz foi interceptada no Aeroporto do Galeão, localizado no Rio de Janeiro. A suspeita tentava retornar à Suíça transportando irregularmente vinte e quatro ovos de papagaio-de-cara-roxa e papagaio-charão, ambas as espécies exclusivas do território brasileiro e classificadas como ameaçadas de extinção pela legislação ambiental nacional.
Os ovos encontravam-se envoltos em meias de seda, estratégia comum entre traficantes para tentar dissimular a carga durante a passagem pelo detector de metais. Após prestar depoimento às autoridades, Erika foi liberada, mas teve seu aparelho celular apreendido pelos investigadores, ação que se mostrou crucial para o desenvolvimento das investigações subsequentes.
Rastreamento das comunicações reveladoras
O exame do telefone celular apreendido forneceu pistas determinantes. Os agentes da Polícia Federal identificaram registros de múltiplas ligações direcionadas a Hans Zehnder, empresário suíço proprietário de dois estabelecimentos especializados na criação de pássaros em seu país. Igualmente importantes foram os contatos frequentes mantidos com a família Schwarz, residente em Curitiba.
Investigações posteriores comprovaram que Marco Schwarz, sua esposa Rita Lydia Schwarz e sua filha Cláudia Fabiana Schwarz gerenciavam um estabelecimento comercial dedicado à venda de equipamentos para captura e manejo de animais silvestres, funcionando dentro da própria residência da família no Paraná. Os investigadores levantaram a hipótese de que essa estrutura serviria como ponto de coleta dos ovos contrabandeados.
Padrão operacional e alcance temporal
Conforme revelado pela Polícia Federal, a organização criminosa internacional operava de forma sistemática há aproximadamente vinte anos. Durante esse período extenso, o grupo realizou cerca de cento e vinte viagens internacionais, transportando uma média de vinte ovos por trajeto. A movimentação criminal concentrava-se predominantemente entre os meses de agosto e março, correspondendo ao período reprodutivo das aves na Mata Atlântica brasileira.
A estrutura montada pela quadrilha indicava um planejamento sofisticado, com rotas predefinidas envolvendo Curitiba e utilizando frequentemente o Aeroporto de Guarulhos como ponto de saída para o exterior. A suspeita suíça Erika Zumofen-Göllesz havia realizado trinta e uma viagens desde a Suíça até o Brasil, seguindo uma rotina padronizada de permanências breves no país e retornos pelo aeroporto paulista.
Operação internacional e prisões na Europa
Os investigadores da Polícia Federal, após monitorarem o embarque de Marco Schwarz em Curitiba com destino a Zurique, deslocaram dois agentes federais para a Europa em operação de cooperação internacional. Trabalhando em coordenação com as polícias suíça e espanhola, os agentes rastrearam os movimentos de Marco Schwarz e Hans Zehnder até a Ilha Gran Canária, localizada nas Ilhas Canárias, Espanha.
Os dois homens foram capturados em flagrante delito dentro de um quarto de hotel na referida ilha. Durante a operação policial, os investigadores apreenderam quantia equivalente a R$ 260 mil em espécie, dividida entre cédulas de euros e francos suíços. Ambos foram transferidos para Madri, onde aguardam os procedimentos de extradição para o Brasil conforme os tratados internacionais vigentes.
Operações simultâneas no Brasil
Enquanto transcorriam as operações de prisão na Europa, a Polícia Federal executava simultaneamente mandados de busca e apreensão em Curitiba. Rita Lydia Schwarz e Cláudia Fabiana Schwarz foram detidas durante essas operações. Na residência e no estabelecimento comercial da família, os agentes federais efetuaram apreensões significativas, incluindo sessenta e um animais empalhados e cento e trinta partes de animais, abrangendo crânios, dentes e outros materiais de espécies ameaçadas, como mico-leão-de-cara-dourada e primatas colombianos.
Essas descobertas configuraram condutas tipificadas na Lei de Crimes Ambientais, ampliando o escopo das acusações contra os membros dessa rede criminal. A Polícia Nacional Espanhola mantém investigações complementares sobre a documentação e aparelhos telefônicos apreendidos para identificar destinatários finais e possíveis cúmplices na Ilha de Gran Canária.
Impacto na sobrevivência dos embriões
A bióloga Fernanda Guida, vinculada ao Zoológico de São Paulo, explicou aos investigadores que o transporte clandestino de ovos provoca taxas extremamente elevadas de mortalidade embrionária. O processo de incubação constitui um procedimento delicado que demanda controle rigoroso e contínuo de temperatura e umidade do ar, fatores que frequentemente não são atendidos durante o transporte ilegal.
Dos vinte e quatro ovos interceptados com Erika Zumofen-Göllesz no Aeroporto do Galeão, apenas nove papagaios conseguiram desenvolver-se completamente e eclodir com vida. Esse percentual de êxito reduzido demonstra o trauma fisiológico causado pelo deslocamento inadequado dos ovos durante o contrabando internacional.
Apreensões adicionais e resgate de filhotes
Além do grupo interceptado na capital carioca, autoridades registraram outras apreensões relevantes. Em Foz do Iguaçu, Paraná, um casal de cidadãos chineses foi capturado ao tentar transportar trinta e quatro ovos em incubadoras improvisadas localizadas no interior de uma sacola e costuradas nas costuras internas de uma jaqueta de vestuário. Desse quantitativo, dezoito filhotes já completaram o processo de eclosão e estão recebendo cuidados contínuos de veterinários e zootecnistas especializados.
No Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, foram apreendidos setenta e um ovos destinados aos mercados da China e Vietnã durante apenas cinco dias de fiscalização intensificada. Esses ovos foram encaminhados para o Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres, mantido pelo governo estadual paulista.
Desafios na reintrodução das aves resgatadas
As aves resgatadas e alimentadas manualmente pelos cuidadores especializados desenvolvem características comportamentais que as tornam excessivamente sociáveis e dependentes de humanos, circunstância que impede sua reintrodução direta e imediata ao ambiente natural. Esses exemplares permanecem vulneráveis a predadores e enfrentam dificuldades na obtenção autossuficiente de alimento na natureza.
A estratégia ambiental implementada pela equipe do Zoológico de São Paulo, sob coordenação da bióloga Fernanda Guida, visa promover a formação de casais reprodutivos entre os indivíduos resgatados. O objetivo é permitir que esses exemplares se reproduzam em ambiente controlado de cativeiro, de maneira que seus descendentes, criados com reduzida interação humana e estimulados a comportamentos selvagens, possam posteriormente ser reintroduzidos nas florestas nativas brasileiras com maiores perspectivas de adaptação e sobrevivência.



