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Terroristas exploram IA para planejar ataques e contornar bloqueios

Terroristas exploram IA para planejar ataques e contornar bloqueios
Fonte: g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/07/20/como-terroristas-estao-usando-ia-para-planejar-ataques-e-burlar-restricoes-dos-chatbots.ghtml

IA e o planejamento de ataques: uma ameaça crescente

A utilização de inteligência artificial terrorismo por grupos extremistas e indivíduos radicalizados representa um desafio cada vez mais urgente para agências de segurança em todo o mundo. Diferentemente do passado, quando a IA era principalmente utilizada para fins propagandísticos, o cenário atual mostra uma evolução preocupante: a tecnologia está sendo empregada no planejamento concreto de operações violentas, pesquisa de métodos para criar armas e coordenação de ataques.

Um relatório recente publicado pela organização Tech Against Terrorism, que recebe apoio do escritório de contraterrorismo das Nações Unidas, documenta essa tendência com dados alarmantes. Os pesquisadores testaram mais de 2.300 solicitações de informação baseadas em casos reais de terrorismo contra 27 modelos diferentes de inteligência artificial. Os resultados revelaram que 32% dessas consultas produziram respostas com conteúdo potencialmente útil para extremistas. Quando as mesmas perguntas eram reformuladas como se fossem para fins acadêmicos, a taxa de sucesso aumentava para 42%, evidenciando como pequenas mudanças na formulação podem contornar os sistemas de segurança.

Compreendendo o "jailbreaking": a técnica dos cibercriminosos

O método de contornar as restrições de segurança dos chatbots é conhecido como "jailbreaking". A OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, define o fenômeno como "tentativa de um agente mal-intencionado de induzir o modelo a fornecer conteúdo proibido". Esta técnica envolve a reformulação estratégica de perguntas, o uso de contextos específicos ou a exploração de lacunas nas instruções de segurança dos modelos de linguagem.

Diversos veículos de comunicação internacional já testaram essa vulnerabilidade e comprovaram sua efetividade. Quando utiliza-se os "prompts" corretos, alguns sistemas de IA conseguem fornecer orientações sobre criação de armas biológicas, planejamento de atentados em locais públicos, métodos para ocultar rastros criminais e construção de dispositivos explosivos. A facilidade com que essas informações podem ser obtidas levanta questões importantes sobre o design e a implementação de sistemas de segurança em plataformas de IA.

Dados alarmes: aumento significativo em 2025

Especialistas da publicação Militant Wire relataram em dezembro que o ano de 2025 marca um ponto de inflexão na história do terrorismo digital. Registrou-se um aumento expressivo de incidentes nos quais terroristas e extremistas violentos utilizaram ferramentas de inteligência artificial terrorismo para diversos fins operacionais, incluindo planejamento estratégico, pesquisa de objetivos, preparação logística e propaganda sofisticada.

Ataques que geraram manchetes internacionais e resultaram em mortes ou danos materiais significativos, bem como conspirações frustradas, envolveram o uso de IA em suas fases preparatórias. Esses incidentes foram documentados em múltiplas jurisdições: Estados Unidos, Canadá, Israel, Finlândia e Áustria. A distribuição geográfica desses casos indica que a ameaça é verdadeiramente global e não se limita a regiões específicas.

Um especialista que compareceu perante o Parlamento do Reino Unido durante investigação realizada no final de 2025 confirmou que "processos judiciais e relatórios periciais documentam cada vez mais conversas nas quais suspeitos solicitam a modelos de linguagem instruções para fabricação de bombas, validação ideológica ou justificativas para ataques". Frequentemente, é difícil precisar exatamente como a IA foi utilizada em cada caso, pois agências de segurança raramente divulgam detalhes operacionais das investigações.

Além dos indivíduos: organizações extremistas adotam a tecnologia

A preocupação não se limita a "lobos solitários" ou atacantes isolados. Grupos extremistas estruturados também estão incorporando inteligência artificial aos seus repertórios operacionais. Pesquisadores que estudam as práticas do grupo Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à Al-Qaeda e baseado no Mali, indicam que a organização utilizou IA para auxiliar na modificação e desenvolvimento de sistemas de drones.

Uma análise publicada em junho pela Global Network on Extremism and Technology, conduzida pelos pesquisadores Yuri Neves e Emily Klein da organização americana Moonshot, revelou dinâmicas preocupantes em comunidades online. Apoiadores do Estado Islâmico e grupos da extrema direita discutem regularmente estratégias para utilizar IA em canais de mensagens privadas e plataformas criptografadas. Os pesquisadores identificaram canais inteiros no aplicativo Telegram dedicados exclusivamente ao compartilhamento de técnicas de jailbreaking e otimização de prompts.

Neves e Klein documentaram que extremistas compartilham "prompts" eficazes e links para conversas com chatbots, coordenam estratégias para obter respostas específicas dos modelos, e até dividem os custos de assinaturas pagas do ChatGPT entre membros da comunidade. Esse nível de organização e coordenação sugere que a adoção de IA por grupos extremistas não é acidental, mas deliberada e crescentemente sofisticada.

A transição de recrutadores para tutores de IA

O pesquisador Rueben Dass, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam em Singapura, oferece uma perspectiva valiosa sobre como a IA está transformando os papéis tradicionais no ecossistema terrorista. Historicamente, existiam "planejadores virtuais" – indivíduos localizados em zonas de conflito que utilizavam redes sociais para contatar possíveis atacantes e incentivá-los a cometer atos de violência.

"Não acho que se possa dizer que os seres humanos tenham sido substituídos, mas, até certo ponto, esses atores isolados passaram a recorrer à IA, como o ChatGPT, para obter esse tipo de apoio", explicou Dass. Os chatbots estão essencialmente preenchendo o papel de mentores virtuais, fornecendo validação ideológica, apoio estratégico e informações práticas sem que haja necessidade de intermediários humanos.

Moustafa Ayad, analista do think tank britânico Institute for Strategic Dialogue, fornece informações adicionais sobre a sofisticação dessa adoção. Conforme Ayad, em 2024, o veículo de mídia do Estado Islâmico denominado Voice of Khorasan publicou orientações formais sobre como utilizar inteligência artificial terrorismo de forma efetiva. O ecossistema jihadista agora utiliza IA em múltiplas dimensões: desde a criação de memes e vídeos de dança para plataformas como TikTok até propaganda transnacional altamente direcionada.

"Também existe um grupo dedicado a tentar burlar os sistemas de IA (jailbreaking) e utilizá-los para apoiar o planejamento operacional e a preparação de ações", afirma Ayad. A tecnologia está, portanto, simplificando e acelerando tanto processos de propaganda quanto operações de planejamento tático.

O dilema da informação disponível livremente

Surge naturalmente uma questão crítica: qual é o grau exato de perigo representado por essa convergência entre terrorismo e IA? Especialistas como Rueben Dass e outros pesquisadores ressaltam um ponto importante: atualmente, uma pessoa determinada a cometer um ato terrorista pode encontrar na internet informações abundantes sobre fabricação de explosivos, construção de armas usando impressoras 3D e outras técnicas destrutivas sem necessidade de recorrer a sistemas de IA.

Yuri Neves levanta uma questão central para o debate: será que a IA fornece informações que não seriam acessíveis de outro modo, ou simplesmente oferece as mesmas informações de forma mais conveniente? Emily Klein, sua colega na Moonshot, posiciona os modelos de linguagem como continuação de outras tecnologias disruptivas anteriores. Assim como a internet e os aplicativos de mensagens criptografadas foram adotados por grupos extremistas ao longo das últimas décadas, a IA representa apenas a evolução mais recente dessa trajetória.

"Não há necessariamente evidências de que a IA esteja criando mais terroristas", observa Klein. "A questão está mais relacionada à forma como a IA interage com as pessoas e influencia o percurso delas rumo à violência." Segundo sua análise, antes mesmo da fase de pesquisa ou planejamento de ataques, sistemas de IA podem acelerar substancialmente as etapas iniciais do processo de radicalização, validando ressentimentos existentes ou incentivando crenças que o indivíduo já possui.

A transformação de manuais em instrutores interativos

Adam Hadley, diretor da Tech Against Terrorism, apresenta uma observação particularmente perspicaz sobre o que diferencia os chatbots de IA de recursos tradicionais. "Uma pessoa determinada acabará encontrando a maioria das informações que procura", reconhece Hadley. "O que esses modelos de IA mudam é a velocidade, a facilidade e a abrangência. Pessoas que antes não tinham tempo, recursos ou capacidade agora podem avançar muito mais longe e muito mais rápido."

Mais preocupante ainda é a natureza conversacional dos chatbots. "Uma coisa é encontrar um manual de fabricação de bombas publicado há décadas em algum site obscuro. Outra completamente diferente é ter um instrutor disponível 24 horas por dia, que responde perguntas, fornece feedback e oferece orientação personalizada", explica Hadley. A interatividade introduz uma dimensão qualitativa diferente na questão do acesso à informação letal.

Perspectivas futuras e avaliação de risco

Rueben Dass oferece uma análise matizada sobre o impacto futuro da IA no terrorismo. Embora reconheça que a tecnologia pode fornecer informações mais rapidamente a potenciais agressores, isso não significa necessariamente que os atos terroristas serão mais bem-sucedidos ou frequentes. "O 'sucesso' de qualquer ato terrorista é multidimensional", argumenta Dass. "Não acredito que ele se torne 'bem-sucedido' apenas por causa do uso da IA. Também não acho que veremos muito mais atos terroristas apenas por causa dela. Mas provavelmente veremos um número maior de ataques que envolvem IA de uma forma ou de outra."

Hadley compartilha dessa perspectiva e acrescenta uma dimensão demográfica preocupante: "A direção dessa tendência é clara. Uma parcela significativa das pessoas que estão sendo radicalizadas na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos é composta por adolescentes e até crianças. Considerando o papel que a internet e as redes sociais já desempenham na radicalização de jovens, acreditamos que é apenas uma questão de tempo até que os chatbots se tornem uma parte significativa desse problema."

A convergência entre inteligência artificial terrorismo e extremismo violento representa portanto um desafio multifacetado que exige respostas coordenadas envolvendo desenvolvedoras de IA, agências de segurança, plataformas de tecnologia e especialistas em contraterrorismo em nível internacional.

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