Morre Ramiro Valdés, lenda revolucionária cubana, aos 94 anos

Ramiro Valdés, lenda da Revolução Cubana, falece aos 94 anos
Ramiro Valdés, uma das personalidades mais emblemáticas do movimento revolucionário cubano e figura fundamental no desenvolvimento do regime instaurado há mais de seis décadas, morreu no domingo (21). O anúncio foi feito pelo presidente cubano Miguel Díaz-Canel através das redes sociais. Ramiro Valdés representava um símbolo vivo da luta que transformou Cuba em 1959, permanecendo ativo em posições-chave do governo até seus últimos dias.
Legado de sete décadas ao lado da revolução
Nascido em 28 de abril de 1932, Valdés ingressou na história revolucionária quando contava apenas 21 anos, participando do ataque ao quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Este episódio marcou o ponto de partida da insurreição que derrubaria o regime de Fulgencio Batista. Desde aquele momento, sua trajetória se entrelaçou indissoluvelmente com a de Fidel Castro, compartilhando os mesmos ideais e compromissos políticos.
Durante o exílio no México, Ramiro Valdés integrou um dos capítulos mais decisivos da revolução: a expedição do iate Granma. Em 1956, navegou entre os 82 homens que partiram rumo a Cuba para reiniciar a insurgência. Apenas 12 desses combatentes sobreviveram ao desembarque e às operações subsequentes. Entre os sobreviventes estavam Fidel Castro, seu irmão Raúl Castro, e Ernesto "Che" Guevara, revolucionário argentino que posteriormente seria executado na Bolívia em 1967.
Combatente nas montanhas da Sierra Maestra
Após chegar a Cuba, Ramiro Valdés juntou-se aos irmãos Castro nas montanhas da Sierra Maestra, no leste da ilha. Atuou como vice-comandante sob as ordens de Ernesto Guevara, participando de operações cruciais contra as forças governamentais. Um dos momentos mais significativos de sua carreira militar ocorreu durante a Batalha de Santa Clara, confronto decisivo travado nos últimos dias antes da fuga de Batista em 1º de janeiro de 1959.
Sua participação neste evento consolidou sua reputação como estrategista militar e combatente experiente. Compartilhava com Castro e Guevara uma capacidade de liderança e carisma que inspirava os soldados revolucionários. Como seus companheiros de armas, mantinha o uniforme verde-oliva como símbolo do compromisso revolucionário, preservando também o cavanhaque no estilo de Leon Trótski que usava desde o início da luta.
Trajetória ministerial e cargos governamentais
Após a consolidação do novo regime em 1959, Ramiro Valdés exerceu múltiplas funções de relevância estratégica. Inicialmente, chefiou a agência de segurança criada após a vitória de Fidel Castro. Posteriormente, ocupou as posições de ministro do Interior, vice-ministro da Defesa, ministro da Informação e Comunicações, além de vice-presidente da república.
Estes cargos conferiam-lhe responsabilidades significativas nas estruturas de poder cubano. Sua lealdade ao sistema revolucionário e ao partido único permaneceu inabalável ao longo das décadas. Mesmo quando enfrentou desafios pessoais ou períodos de maior ou menor visibilidade pública, Valdés manteve seu compromisso com os princípios revolucionários que guiavam a nação.
Permanência no governo cubano durante transições políticas
Quando Raúl Castro, irmão de Fidel, iniciou o processo de transição de poder visando transferir responsabilidades para uma geração de líderes mais jovens, Ramiro Valdés continuou em cargos estratégicos. Em 2018, a presidência foi transmitida para Miguel Díaz-Canel, que herdou um país enfrentando desafios econômicos e energéticos significativos. Apesar dessa mudança institucional, Valdés permaneceu como vice-primeiro-ministro, focalizando suas atenções na crise energética que afetava a ilha.
Sua permanência em posições-chave refletia a importância que ainda detinha dentro da estrutura governamental. Regularmente aparecia em uniforme militar ao lado do presidente Díaz-Canel, participando de iniciativas destinadas a mobilizar a população cubana para enfrentar as limitações de fornecimento de eletricidade. Incentivava os cidadãos a adotarem práticas de economia de energia e a mantiverem o espírito revolucionário nas adversidades.
Compromisso inabalável com a revolução
Ramiro Valdés nunca se desviou dos objetivos revolucionários, mesmo durante os períodos mais críticos enfrentados pelo país. Sua dedicação ao sistema e à causa que abraçou aos 21 anos permaneceu constante até o final de sua vida. Em 2014, durante a celebração do 61º aniversário do ataque ao Moncada, reafirmou seu posicionamento: "Não podemos esquecer que chegamos até aqui graças à unidade do povo e à confiança na revolução. Devemos preservar essa unidade acima de tudo, porque sabemos que essa luta ainda não terminou."
Suas palavras sintetizavam a visão que mantinha sobre o processo revolucionário: uma jornada contínua que exigia vigilância permanente e mobilização constante. Até seus últimos anos, demonstrou disposição para participar ativamente dos assuntos de estado, evidenciando dedicação exemplar aos deveres que assumira décadas antes.
Reconhecimentos e homenagens à sua memória
Ramiro Valdés recebeu títulos honorários significativos que reconheciam sua contribuição histórica. Foi designado "Herói da República" e "Comandante da Revolução", honrarias que sublinhavam seu status na hierarquia revolucionária. Integrou o Bureau Político do Partido Comunista de Cuba até 2019, momento em que se afastou formalmente de suas responsabilidades partidárias.
O presidente Miguel Díaz-Canel, ao anunciar o falecimento, expressou o impacto emocional da perda, afirmando que a morte de Valdés "dói profundamente, como a de um pai". Esta declaração evidencia a relação de proximidade e respeito que havia sido estabelecida entre as gerações revolucionárias, tanto as históricas quanto as subsequentes.
Ramiro Valdés deixa um legado incomparável na história cubana moderna, representando uma geração de revolucionários que transformou a realidade política de uma nação. Sua dedicação à causa, sua longevidade política e sua lealdade inabalável aos princípios revolucionários o consagram como figura incontornável na memória histórica de Cuba.


