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Tecnologia

Meia década de ECA Digital: desafios na proteção online

Seis meses de ECA Digital em prática

O ECA Digital completa seu primeiro semestre em vigor, trazendo mudanças significativas na forma como o ECA Digital responsabiliza as plataformas pela proteção de menores de idade. Desde sua implementação, a legislação buscou transferir parte da responsabilidade que antes recaía exclusivamente sobre os pais para as empresas de tecnologia. No entanto, a trajetória inicial revela obstáculos consideráveis na efetivação dessas normas, conforme apontam especialistas e órgãos reguladores.

Um caso emblemático colocou à prova as promessas do estatuto. A morte de uma adolescente de 13 anos após uma transmissão na plataforma Discord levantou questões cruciais sobre o cumprimento das obrigações do ECA Digital. A investigação, conduzida pelas polícias do Rio de Janeiro e Goiás com apoio do Ministério da Justiça, revelou que um grupo liderado por um adolescente da região metropolitana induzira a jovem ao suicídio através de coerção virtual.

Responsabilidade das plataformas: principais mudanças

O ECA Digital implementou alterações estruturais nas obrigações das plataformas digitais. A responsabilidade sobre a segurança de crianças e adolescentes deixou de ser apenas responsabilidade parental, passando a incluir exigências específicas às empresas de tecnologia.

Entre as determinações principais estão a realização de verificação de idade que não se baseie em autodeclaração, oferecimento de ferramentas robustas de controle parental, eliminação de rolagens infinitas que estimulam uso compulsivo, restrição de conteúdos inadequados e comunicação às autoridades sobre violações graves. As plataformas também devem implementar mecanismos de proteção de dados e prevenir riscos direcionados ao público infantil.

Papel da Autoridade Nacional de Proteção de Dados

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados, vinculada ao Ministério da Justiça, assume responsabilidade fundamental na fiscalização e regulamentação do ECA Digital. Nos primeiros seis meses de vigência, a agência recebeu 197 denúncias relacionadas ao descumprimento das normas.

Fabrício Lopes, superintendente de fiscalização da ANPD, destaca que a implementação representa um desafio complexo. "É uma lei difícil de implementar, sofisticada, não é uma mudança que acontece do dia para a noite", explicou. A ANPD atua junto às plataformas para garantir qualificação etária adequada, supervisão parental efetiva e classificação indicativa correta, embora não realize controle direto de conteúdo, mas sim controle de qualidade dos mecanismos de proteção.

Desafios na implementação do ECA Digital

Apesar das disposições legais claras, especialistas identificam lacunas significativas entre a teoria e a prática. Ariel de Castro Alves, especialista em direitos da infância, aponta que muitas famílias nunca receberam notificações ou acessaram aplicativos específicos das plataformas para implementar supervisão parental. A efetividade do ECA Digital permanece limitada, exceto em casos de grande repercussão mediática.

A suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil pela ANPD reflete uma ação concreta, porém isolada. O Discord alegou em comunicado oficial que é frequentemente retratado de forma descontextualizada, enfatizando que utiliza tecnologia avançada e equipes especializadas para remover conteúdos violadores e que a questão possui natureza multiplataforma.

Proteção de dados versus verificação etária

Um dos maiores desafios do ECA Digital reside na aferição confiável de idade sem violação da privacidade. Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto Tecnologia e Sociedade, explica que a coleta documental ou reconhecimento facial podem implicar em coleta exagerada de dados pessoais. O ECA Digital propõe o conceito de "sinal de idade", permitindo que provedores identifiquem a faixa etária sem coletar dados desnecessários.

Influenciadores digitais e o ECA Digital

A proteção oferecida pelo ECA Digital estende-se também aos influenciadores mirins. Anteriormente, bastava autorização dos pais para que crianças tivessem suas imagens e rotinas monetizadas. Agora, é obrigatório alvará judicial para influenciadores menores de idade. Influenciadores adultos com público-alvo infanto-juvenil devem produzir conteúdo apropriado para essa faixa etária.

Enaldinho, aos 28 anos com 48 milhões de inscritos, exemplifica um influenciador que já demonstrava preocupação com saúde mental de seu público antes mesmo da regulamentação. O debate público sobre redes sociais intensificou sua responsabilidade percebida diante dessa geração.

Responsabilidades dos pais no contexto do ECA Digital

Embora o ECA Digital transfira responsabilidades às plataformas, os pais continuam sendo atores centrais na proteção. Devem acompanhar o uso, orientar sobre riscos, configurar controles parentais obrigatoriamente oferecidos pelas plataformas, monitorar contatos e tempo de tela, manter conversas sobre perigos virtuais e agir diante de sinais de violência ou crime.

Avanços e perspectivas futuras

Apesar dos desafios, Ariel de Castro Alves faz balanço positivo sobre o impacto do ECA Digital. A legislação promoveu debate nacional sobre dependência digital, vício em redes sociais e segurança online, transcendendo discussões restritas a especialistas para atingir famílias e escolas em todo país. Esse engajamento coletivo representa passo importante na construção de internet mais segura para menores.

A efetividade plena do ECA Digital dependerá do aprimoramento contínuo de mecanismos tecnológicos, melhor comunicação entre plataformas e famílias, fiscalização consistente e, fundamentalmente, da compreensão compartilhada de que proteger crianças e adolescentes online é responsabilidade coletiva que envolve empresas, governo, pais e sociedade.

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