Colômbia Dividida: De la Espriella e Cepeda Representam Dois Países
Uma Nação em Dois Caminhos Distintos
A eleição presidencial na Colômbia evidencia uma Colômbia dividida entre duas visões de país radicalmente diferentes. Os candidatos Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda, que seguem para o segundo turno neste domingo, representam modelos de governo antagônicos que refletem as profundas divisões territoriais, econômicas e ideológicas da nação.
O advogado De la Espriella chega ao pleito com uma proposta conservadora e linha dura, inspirado em figuras políticas internacionais como Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele. Seu projeto enfatiza segurança rigorosa, redução do Estado e princípios religiosos cristãos. Por outro lado, o senador e filósofo Cepeda apresenta uma agenda de esquerda com reformas sociais abrangentes e uma abordagem conciliadora em segurança, buscando dar continuidade ao governo progressista de Gustavo Petro.
Resultado Equilibrado do Primeiro Turno
No primeiro turno, a Colômbia dividida manifestou-se através de uma votação muito próxima entre os dois candidatos. De la Espriella obteve 43,7% dos votos, enquanto Cepeda conquistou 40,9%, indicando uma competição acirrada que se estende até o segundo turno. Essa margem reduzida demonstra como a população está polarizada entre as duas propostas políticas apresentadas.
Raízes Históricas da Divisão Territorial
A divisão que marca essa Colômbia dividida não é nova. Desde 2016, quando um plebiscito sobre o acordo de paz com as Farc dividiu o país, as regiões colombianas vêm votando de forma consistente. O "Não" venceu então, apoiado por setores conservadores, e desde então, esse padrão se repetiu nas eleições de 2018, 2022 e agora em 2024.
Segundo análises de especialistas, as regiões periféricas da Colômbia dividida votam consistentemente pela esquerda, enquanto as regiões do centro, atravessadas pela Cordilheira dos Andes, favorecem candidatos de direita. As exceções ocorrem nas grandes cidades, onde as dinâmicas eleitorais são mais complexas e multifacetadas.
Diferenças Econômicas e Geográficas
As regiões periféricas, que incluem os litorais, a Amazônia e a fronteira com a Venezuela, coincidem com algumas das áreas mais pobres e excluídas do país, além de serem as mais afetadas pela violência e pela disputa de grupos armados. Essas mesmas regiões demonstram forte apoio a Cepeda, refletindo a promessa do candidato de inclusão e reforma social.
Em contraste, o centro do país, com sua economia agroindustrial integrada às cidades, tende a apoiar candidatos como De la Espriella. Essa dicotomia econômica entre um sistema agroindustrial centralizado e uma economia extrativista nas periferias enraizou diferenças territoriais acentuadas que agora definem a Colômbia dividida nas urnas.
Estratificação de Renda e Preferências Eleitorais
Os dados do primeiro turno revelam padrões claros sobre como diferentes grupos sociais votaram. Nas grandes cidades como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla, os estratos de renda mais baixa tenderam a votar em Cepeda, enquanto os eleitores de renda média e alta preferiram De la Espriella. Essa divisão por classe social adiciona outra camada à Colômbia dividida que comparece às urnas.
Propostas Econômicas Radicalmente Diferentes
As agendas econômicas dos dois candidatos refletem essa polarização. De la Espriella propõe reduzir o tamanho do Estado e diminuir impostos para empresas, seguindo uma lógica de menor intervenção estatal. Cepeda, inversamente, busca aumentar o papel do Estado, transformar o campo em motor nacional de desenvolvimento e fortalecer as pequenas empresas através de políticas de inclusão.
Heranças Históricas nas Escolhas Eleitorais
Especialistas identificam que as preferências atuais ecoam escolhas históricas da Colômbia dividida há séculos. As regiões andinas mantêm uma herança de votos pelo Partido Conservador, enquanto os litorais preservam uma tradição de apoio ao Partido Liberal. Embora esses partidos tradicionais tenham perdido influência, suas bandeiras foram absorvidas por movimentos contemporâneos.
O historiador Felipe Arias Escobar observa que há continuidades transcendendo a simples dicotomia esquerda-direita. Setores que votavam no Partido Liberal depois apoiaram Juan Manuel Santos e agora gravitam em torno de Cepeda e Petro. Similarmente, eleitores que apoiavam o Partido Conservador e posteriormente Álvaro Uribe agora simpatizam com a versão colombiana das direitas populistas representada por De la Espriella.
Além da Polarização Mecânica
Apesar da Colômbia dividida aparecer nas manchetes como profundamente polarizada, cientistas políticos questionam essa leitura. Juan Fernando Giraldo, especialista em opinião pública, argumenta que muitos colombianos não são eleitores "mecânicos" que votam automaticamente em A ou B, mas sim cidadãos com preferências voláteis e complexas.
Giraldo destaca que existe um grande bloco de cidadãos com posições menos intensas sobre questões políticas fundamentais, que não se informam ou expressam fortemente sobre se a autoridade do Estado deve ser maior ou menor. Esse grupo considerável pode votar em candidatos muito distantes entre si sem necessariamente estar profundamente polarizado.
O Impacto do Episódio de 2021
Os ecos de 2021, quando explosões sociais eclodiriam contra o modelo econômico e a política tradicional durante o governo conservador de Iván Duque, ainda reverberam nesta eleição. Aquele movimento, que culminou em 2022 com a eleição de Petro, criou uma nova cidadania com demandas identitárias que agora entraram em choque com movimentos de reação política.
A Colômbia dividida de hoje reflete, em parte, essa dinâmica: de um lado, novas demandas sociais canalizadas através da esquerda; do outro, tentativas de recomposição das direitas buscando frear o impulso dessa cidadania emergente.
Identidades Menos Estáticas
Diferentemente dos anos 1940 e 1950, quando ser conservador ou liberal refletia tudo sobre a identidade de uma pessoa, as posições políticas atuais são menos fixas. Colombianos encontram maneiras de conciliar valores aparentemente contraditórios, como apetite por figuras de autoridade e princípios católicos com recalibrações progressistas de prioridades sociais.
De la Espriella soube explorar efetivamente mensagens sobre família, autoridade e combate ao crime, enquanto Cepeda beneficiou-se da unificação da esquerda em torno de Petro. Porém, as pessoas que se entusiasmam com esses discursos não necessariamente se consideram profundamente alinhadas ideologicamente com seus candidatos, refletindo a complexidade da Colômbia dividida contemporânea.
Perspectivas para o Segundo Turno
O segundo turno de domingo promete esclarecer qual modelo de país os colombianos escolhem. Porém, mesmo diante da aparente polarização, especialistas reconhecem que a Colômbia dividida é mais nuançada do que a cobertura midiática frequentemente sugere, com cidadanias diversas e dinâmicas locais complexas determinando o comportamento eleitoral além de simples linhas ideológicas.



