A ditadura militar que assolou o Brasil durante os anos de 1964 a 1985 deixou marcas profundas na história do país e na vida de milhares de brasileiros. Além dos diversos problemas sociais e políticos enfrentados durante esse período, as famílias também foram afetadas pelas consequências do regime autoritário. E é justamente esse tema que o aclamado diretor brasileiro Walter Salles traz à tona em sua obra, expondo as dificuldades enfrentadas pela família Paiva durante a ditadura.
O filme “Central do Brasil”, lançado em 1998, é considerado uma das maiores obras do cinema nacional e teve grande repercussão internacional, sendo premiado em diversos festivais e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A história gira em torno de Dora, interpretada de forma brilhante por Fernanda Montenegro, uma ex-professora que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Em meio a essa rotina, Dora se depara com Josué, um menino de nove anos que acaba de perder a mãe em um acidente de ônibus. Sem ter para onde ir, Josué pede ajuda a Dora para encontrar seu pai, que supostamente estaria vivendo no sertão nordestino.
Ao longo da jornada rumo ao encontro do pai de Josué, Salles expõe as dificuldades enfrentadas pela família Paiva durante a ditadura. A figura paterna, o pai de Josué, é um exemplo de como a opressão do regime se refletiu nas relações familiares. Ele é um ativista político, perseguido e torturado pelo governo militar, o que o levou a abandonar a família e se separar da esposa grávida. O filho, Josué, cresceu sem o convívio paterno e com a imagem de um pai ausente e reprimido pela ditadura.
Além disso, a própria Dora é uma vítima indireta da ditadura. Durante sua vida de professora, ela presenciou a perseguição e a censura imposta pelo governo às escolas e aos professores que não aceitavam o regime. Dora também abrigava em sua casa diversos amigos e colegas perseguidos pelo regime, demonstrando o medo e a insegurança que dominavam a época.
A jornada de Dora e Josué também percorre os sertões nordestinos, mostrando a realidade da população pobre e oprimida, que sofria com a falta de infraestrutura e assistência do governo. A viagem é marcada pela jornada emocional dos personagens, que vão se descobrindo e superando suas próprias dificuldades e traumas.
Outro aspecto importante abordado por Salles é a questão da memória e do resgate da identidade. Josué cresceu sem conhecer seu pai e com a imagem de um homem que ele nunca teve a oportunidade de conhecer de verdade. Ao longo da viagem, ele vai descobrindo mais sobre seu pai e sua história, enfrentando a dura realidade dos fatos e conseguindo se reconectar com suas raízes.
O filme não só expõe as dificuldades enfrentadas pela família Paiva durante a ditadura, mas também retrata a força e a resiliência dos personagens diante de tantas adversidades. Dora, Josué e o pai são exemplos de sobreviventes que, apesar de todas as provações que tiveram que enfrentar, conseguiram se manter de pé e lutar por suas vidas e identidades.
Com roteiro e direção impecáveis, “Central do Brasil” é uma obra que emociona e conscientiza sobre os impactos da ditadura na vida de milhares de pessoas. Além disso, o filme se torna ainda mais relev




